Não é mais segredo: merecidamente, a Unidos da Tijuca é a grande campeã do carnaval carioca. Um desfile como há muito tempo não se via, com todas as escolas do Grupo Especial de parabéns pelo belíssimo espetáculo desses dois dias na avenida.
No domingo, a emoção de ter de volta uma escola que nos deu alguns dos enredos e sambas mais memoráveis das décadas de 70, 80 e 90. A União da Ilha, de Haroldo Melodia, do poeta Didi e de tantos bambas, sob a batuta de Rosa Magalhães, trouxe uma linda leitura do clássico “Dom Quixote”. Apesar de tricolor, a Ilha é como o América: a segunda escola no coração de quem gosta de carnaval.
A Mocidade fez uma brilhante apresentação para recuperar a autoestima de escola campeã, de grande agremiação, honrando a comunidade de Padre Miguel.
Honras também para os compositores. A safra deste ano, com destaque para os belos sambas da Imperatriz, Salgueiro e Vila Isabel, em minha opinião, foi uma das melhores desses últimos 10 anos.
Polêmicas não poderiam faltar. A menina Julia Lira, de sete aninhos, filha do presidente da Viradouro, Marco Lira, como rainha de bateria, talvez tenha sido a maior delas. Mas não foi por isso que a escola de Niterói caiu. Aliás, acredito que o número de 12 escolas no Grupo Especial não condiz com a grandeza do “maior show da Terra”. Pelo menos neste ano, ninguém deveria ser rebaixado por tudo o que foi apresentado na Sapucaí.
Por que não 14 escolas? Assim poderíamos ver agremiações tradicionais como Império e Estácio no seu devido lugar.
Baterias? Todas nota 10. Exceção para a de mestre Marcone, a da Imperatriz: nota 11. Puxador? Tá bom, intérprete, como preferia o genial Jamelão: Neguinho da Beija-flor. Casal 20? Sidcley e Squel, mestre-sala e porta-bandeira da Grande Rio. Enredo? A justa homenagem a um dos maiores nomes, não somente do samba, mas da música brasileira, Noel Rosa, feito pela sua Vila Isabel.
Antes de falar um pouco mais sobre a Unidos da Tijuca, parabéns a São Clemente, que deu um choque de ordem na avenida e volta para a primeira divisão do carnaval e para a Rosas de Ouro, que abriu alas e conquistou o título na desvairada paulicéia.
Comecemos pelo começo (é óbvio). Não, não é óbvio nada. Estamos falando do carnavalesco mais ousado, que para mim é o sucessor do craque Joãosinho Trinta: ele mesmo, Paulo Barros. A comissão de frente da Tijuca passou a ser o sonho de consumo de namorados e maridos. Afinal, bem que as componentes poderiam ensinar nossas mulheres a trocar de roupa em tão pouco tempo. Mágica? Ilusionismo que iludiu os nossos olhares.
Ousadia nas alegorias, a começar pelo abre-alas. O incêndio da Biblioteca de Alexandria esquentou ainda mais a noite do sambódromo. E teve como contraponto os altos e baixos dos super-heróis, que subiam como o Homem-aranha, e desciam como o Batman. E não foi um morcego que fechou com chave de ouro a passagem da campeã, mas o símbolo da escola, o pavão, com toda sua beleza e vaidade.
Parabéns ao artista Paulo Barros, a comunidade do Borel e ao perseverante Fernando Horta. Minhas homenagens também ao vice-campeonato brilhante da Grande Rio. A hora dessa escola, que é grande não só no nome, está chegando. Também a sempre favorita, Beija-flor, pela medalha de bronze. Mas parabéns a todas as escolas que fizeram um dos carnavais mais espetaculares da Passarela do Samba Darcy Ribeiro. Aposto que o querido mestre Darcy, lá no céu, também deve estar achando o mesmo.
Nas ruas do Rio, Salvador, Recife e nas ladeiras de Olinda
Como a folia não é só na Sapucaí, o carnaval de rua do Rio também foi um dos melhores dos últimos anos. Centenas de blocos levaram alegria a todos os pontos da cidade. Bola branca para os mais de dois milhões de foliões que foram às ruas da Cidade Maravilhosa.
Afinal, qual é o melhor carnaval do Brasil? Rio, Salvador, Recife e Olinda? Deixo a resposta por sua conta. Fico mesmo, literalmente, em cima do muro. Gosto de todos. Ainda mais se ganhar um “vale-night” pra curtir a folia soteropolitana. Explico: o tal vale foi a novidade do carnaval baiano. Uma espécie de salvo-conduto para se brincar, pelo menos, uma noite, sozinho ou sozinha.
No carnaval do “rebolation”, “na base do beijo”, baianas e baianos comemoram 60 anos de trio elétrico e 25 anos de muito axé-music.
Em Recife, o carnaval é multicultural, mas sem perder de vista a tradição. Do maracatu, dos blocos líricos, do frevo de mestre Capiba. Tudo isso na companhia de Elba Ramalho, Zeca Pagodinho, Carlinhos Brown e paro por aí.
E quem não subiu e desceu as ladeiras históricas de Olinda nesses dias de folia e brincadeira não sabe o que é Pitombeira, Elefante, Siri na lata. Por isso, eu acho é pouco. Olinda dos quatro cantos, onde os blocos se encontram. Dos bonecos gigantes. Do frevo canção. “Olinda, quero canta…”
Ah, quinta-feira ingrata! A quarta não é mais de cinzas porque temos o “Bacalhau do Batata”, lá pelos lados de Olinda. O “Me beija que eu sou cineasta”, novidade carioca e frevo e axé em Recife e Salvador.
Tomara que chegue logo o carnaval de 2011…
Tags: Crônica